quarta-feira, julho 22, 2015

Subindo, almejando, na passada clandestina entre as árvores serranas, procuro o mais recôndito miradouro natural no qual melhor sentir a vista nocturna da natureza virgem por baixo do meu olhar sequioso de paisagem escarpada e selvagem. Aonde o vento justifique com a sua intensidade a pele adormecida que me envolve, aonde ele como lâminas reveladoras me entrecorte o conforto dos cabelos dependurados quais frutos por colher, aonde ele me traga ao olfacto citadino e poluto a frescura de mil fragrâncias do mundo imenso, da sua maresia, da pólvora das guerras, dos côcos das palmeiras dos oásis no deserto. Por isso ascendo. Haja trilho ou não, ascendo. Procuro na longitude o que não está na latitude. Não quero saber de coordenadas. Estar perdido é uma ilusão. Sei que estou no planeta Terra, e por isso ascendo. Sem ilusões, sem pretensões, que não caminhar, e caminhar, deixando para trás as pegadas mil, decalcando a ininterrupta marca da minha demanda, visível, mais saliente ou menos, mais inteligível ou menos. Amigos as verão, inimigos as verão, uns interpretarão de uma forma, outros como lhes convier. Subo, tendencialmente ignorante dos barulhos das aves de rapina e dos lobos. No durante, procuro entender e descrevê-la com os meus passos toda a realidade que me circunda, e também a que me está inscrita. Como o Galileu, que analisou toda a nossa circunferência, e que quiseram crucificar por isso. Como os filósofos, que observam sempre, e analisam sempre, indiferentes aos limites, pois não os ultrapassam na sua mente puramente constantante. Como os artistas, com todo o exagero que a arte acarreta. Subo, displicente em relação aos perigos. Subo, fiel aos instintos que prevalecem, maiores, intocáveis, como as árvores seculares que rodeiam este abrigo, exposto, mas paradoxalmente um abrigo. Abrigo da sociedade, das notícias, da política, das telenovelas, dos dramas, e de outras subtilezas... De tudo o que existe no dia-a-dia comum. Por isso prossigo. Sem querer mais do que as folhas caídas dos ciprestes em meu torno , sem mais querer do que a minha própria mónada verde. Sou daqueles gajos que estacionam sem ocupar dois lugares. Estaciono no meu, e quem quiser que estacione onde quiser. Se quiser estacionar ao pé do meu, tem lá espaço. Só isso. Fora isso, é sempre a seguir caminho, sem querer saber da distância nem das pegadas nem dos arredores. Estou bem neste caminho incerto. Estarei bem, onde quer que ele vá dar. É isto a liberdade. É isto o mundo, para lá do lugar-comum que é a povoação regrada. É isto a vida que há escondida, algures dentro da vida. Sou isto. Nada mais. Mas também nada menos.